Antes do SUS existir, a saúde pública no Brasil seguia outra lógica: atender quem contribuía com a previdência social.
Era um modelo limitado, excludente e profundamente desigual. Para compreender a verdadeira importância do SUS, é essencial olhar para esse passado. Como funcionava o sistema antes dele? Quais as heranças da previdência social que ainda influenciam o cuidado em saúde?
Nesta matéria, você vai conhecer a trajetória da saúde brasileira, desde os primórdios do modelo previdenciário até a construção de um sistema universal.
O início: saúde como benefício do trabalho
No Brasil, a assistência médica pública começou a se estruturar com mais firmeza na década de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas. Com a criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em 1943, as relações entre Estado, trabalho e previdência passaram a ser organizadas de forma centralizada. Foi nesse período que surgiram as Caixas de Aposentadoria e Pensões (CAPs), ligadas a categorias profissionais específicas, como ferroviários, portuários, comerciários e bancários. Cada caixa era responsável por fornecer benefícios previdenciários e também assistência médica aos seus filiados. Esse modelo, no entanto, era altamente segmentado, desigual e limitado. Trabalhadores rurais, informais e autônomos, por exemplo, ficavam completamente de fora.
A criação do INPS e do INAMPS
Em 1966, o governo militar extinguiu as CAPs e fundiu todos os institutos em uma só organização: o INPS (Instituto Nacional de Previdência Social). A ideia era unificar e centralizar a previdência para melhorar a gestão. Mais tarde, em 1977, foi criado o INAMPS (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social), órgão que passou a cuidar exclusivamente da saúde dos contribuintes do INPS. O atendimento era realizado principalmente por meio da compra de serviços na rede privada, com convênios hospitalares, clínicas terceirizadas e poucos equipamentos próprios. Esse modelo ficou conhecido como “sistema de mercado subsidiado”: o governo pagava, mas o serviço era majoritariamente privado. E continuava restrito a quem contribuía com a previdência.
As limitações desse modelo
Apesar de ter ampliado o acesso para algumas categorias, o modelo previdenciário não era universal. As desigualdades sociais e regionais se mantinham, e, em muitos casos, se agravavam.
Os principais problemas eram:
- Exclusão: quem não contribuía formalmente com o INPS não tinha direito à assistência.
- Foco curativo: pouco se investia em prevenção ou saúde coletiva.
- Concentração urbana: hospitais e clínicas estavam, em sua maioria, nas capitais.
- Ineficiência administrativa: com a terceirização generalizada, havia baixa fiscalização e muitos casos de fraudes.
- Alto custo: o gasto com hospitais privados crescia, mas a qualidade do serviço não acompanhava.
Esse cenário reforçava a ideia de que a saúde era um benefício do trabalho formal, e não um direito de todo cidadão.
A Reforma Sanitária: ruptura e transformação
Na década de 1980, em meio à abertura democrática e à mobilização da sociedade civil, nasceu o movimento da Reforma Sanitária Brasileira. Profissionais da saúde, professores, sindicalistas e lideranças populares passaram a defender um novo modelo de atenção: público, gratuito, integral e universal. O marco político desse movimento foi a 8ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986, que consolidou a proposta de um sistema único, descentralizado, com gestão participativa e acesso garantido a todos. Dois anos depois, a Constituição de 1988 incorporou essa proposta ao texto legal, com o famoso artigo 196:
“A saúde é direito de todos e dever do Estado.”
Foi aí que nasceu oficialmente o Sistema Único de Saúde: SUS, rompendo com a lógica anterior e criando uma nova base para o cuidado em saúde.
O fim do INAMPS e a consolidação do SUS
Com a criação do SUS, o INAMPS perdeu função. Em 1993, ele foi oficialmente extinto, e seus serviços, servidores e estrutura foram incorporados ao Ministério da Saúde e às secretarias estaduais e municipais. A partir desse momento, a responsabilidade pela saúde deixou de ser do órgão previdenciário e passou a ser de todo o sistema público de saúde, organizado com base em princípios democráticos e regionais.
O que ainda resta desse passado?
Mesmo com a extinção do modelo previdenciário, muitas marcas dele ainda estão presentes no cotidiano da saúde:
- Hospitais conveniados ao antigo INAMPS seguem funcionando e sendo referências.
- Parte da população ainda enxerga a saúde como um “benefício”, e não um direito.
- A lógica curativa e hospitalocêntrica ainda é forte, apesar dos avanços na atenção primária.
Por isso, entender a história da relação entre previdência e saúde é fundamental para compreender os desafios e avanços do SUS.
O SUS não nasceu do zero. Ele surgiu como resposta a um modelo desigual, fragmentado e excludente, que por décadas atendeu apenas a quem tinha carteira assinada. Reconhecer a história da previdência social e sua influência na saúde brasileira é reconhecer também a importância do SUS como projeto civilizatório. Ele transformou o cuidado em um direito de todos, e isso precisa ser valorizado e defendido.
“O SUS é filho da democracia, e neto da luta por dignidade e justiça social.”

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